Entrevista

Um olhar sobre o leite paulista

O setor lácteo se recupera e busca incentivos para a industrialização

Luiz Souza

 

Dr .Carlos Humberto
Dr. Carlos Humberto Mendes
de Carvalho
Presidente do Sindleite - SP

Produzir leite em São Paulo é mais caro que em outras regiões.

Os custos mais altos da terra e da mão-de-obra são os fatores determinantes mas o setor vem incrementando sua produção leiteira. Mercado consumidor gigante - absorve 30% da produção nacional -, o estado só produz 1/3 da sua necessidade, trazendo leite e os laticínios de todas as regiões do Brasil.

A sobrecarga tributária, recentemente amenizada, também é fator de redução da competividade do leite paulista. O tema tem sido abordado pelas entidades representativas, dentre as quais o Sindleite, filiado à Fiesp, tem capiteaneado os pleitos junto ao governo estadual e federal.

Para falar sobre a situação do setor lácteo paulista e brasileiro, a revista iL - Indústria de Laticínios ouviu as considerações do Dr. Carlos Humberto Mendes de Carvalho, presidente do sindicato e profundor conhecedor do setor, atuando há vários anos como industrial e líder setorial.

Indústria de Laticínios - A produção leiteira no Estado de São Paulo tem crescido nos últimos anos, depois de um período de estagnação e mesmo decréscimo. Quais fatores têm contribuído para este crescimento?

Dr. Carlos Humberto - O Estado de São Paulo consome 30% de toda produção láctea nacional e produz só um terço do que consome sendo, portanto, um estado importador. Graças à visão do governo do estado e aos incentivos que passou a dar ao setor, a produção de leite tem crescido, somando 8,5% no acumulado dos dois últimos anos. O setor lácteo paulista está em ascensão e em recuperação da produção leiteira.

Produzir leite em São Paulo é caro quando comparado com outras regiões. Como é o perfil de produtor de leite paulista e como anda a produtividade em geral dos rebanhos?

Produzir leite em S.Paulo de fato é mais caro do que em outras regiões. Isso se deve ao preço da terra e ao custo da mão de obra que é melhor remunerada. Mas há a compensação nos custos de logística e a boa malha viária do estado facilita a captação mais próxima do maior mercado nacional.

Sobre a produtividade, o que percebemos no Estado de S.Paulo é que os produtores estão se especializando para obter maior produtividade em áreas cada vez menores.

Quais medidas o governo estadual tem tomado para fomentar o setor lácteo? E o que falta fazer?

Como parte importante do estímulo à produção paulista, o governo estadual concedeu crédito outorgado de ICMS para a compra de leite no estado e, com a implantação da substituição tributária, tem havido uma preferência do varejo em adquirir produtos lácteos fabricados no próprio estado.

E o que falta fazer?

Falta um programa de incentivos para a industrialização de produtos lácteos, mas sem um banco de fomento essa política fica cerceada. O governo do estado através das Casas da Lavoura poderia intensificar o apoio aos pequenos produtores e aportar tecnologias novas para baixar os custos da produção do leite.

Recentemente o Sindleite obteve a concessão do crédito outorgado de ICMS para o leite produzido no estado de São Paulo. O que isto significa para a cadeia produtiva?

Significa que hoje o Estado de São Paulo é que paga o melhor preço ao produtor de leite. Em um passado recente os produtores melhor remunerados eram os de Minas Gerais e de Goiás.

Junto ao governo federal, através do Mapa, que ações o Sindleite tem proposto?

Na área financeira os pleitos do Sindleite são cada vez mais amplos. Com o objetivo de que o setor tenha competitividade e continue a crescer com regularidade e solidez, o Sindleite pleiteou a redução dos juros agrícolas de 6,75% ao/ano para 4,75% ao/ano, principalmente para que empresas médias e pequenas possam produzir capital de giro suficiente para reduzir os desequilíbrios entre os períodos de safra e entressafra.

Ainda em relação à tributação, o Sindleite, posicionouse com relação à PEC 285/04, chamada “Reforma Tributária”, no que tange especialmente as alterações relativas ao ICMS, considerando seus possíveis impactos sobre a indústria paulista de lácteos. A defesa tem sido em alerta ao risco de aumento da carga tributária já bastante onerosa na indústria de alimentos e em especial nos lácteos, que representam um grupo importante no aporte de nutrientes relevantes para a população brasileira.

A legislação do Riispoa – Regulamento Industrial de Inspeção de produtos de origem animal – está sendo revista há algum tempo. Quais são as principais medidas que estão sendo cogitadas?

Estão sendo propostas várias adequações, dependendo de cada produto lácteo. Como o RIISPOA em vigor data de 1952, no geral, o espírito das propostas apresentadas pelas indústrias lácteas referem-se à incorporação de atualizações tecnológicas em matérias primas e processos, que evoluíram naturalmente e que precisam constar da nova regulamentação.

Existe previsão de aprovação e de vigência da nova legislação?

Temos expectativas de vê-la aprovada em 2010.

Com relação à remuneração do produtor, os preços atuais são adequados?

Os preços atuais ao produtor brasileiro e especialmente ao paulista têm remunerado a produção. Em função da política cambial, o preço do leite brasileiro hoje está acima dos patamares internacionais. Segundo dados do CEPEA, o produtor rural brasileiro recebeu na média R$0,73/litro em julho de 2009. Na média dos países do Mercosul, excluído o Brasil, o valor equivalente do litro produzido ficou em R$ 0,48, nos Estados Unidos em R$ 0,58, na Nova Zelândia ficou em R$ 0,65 e na União Européia entre R$ 0,70 a 0,79. Nesses patamares e mantida a atual política cambial, não há qualquer possibilidade de exportação de produtos lácteos brasileiros.

Ainda há o problema da sazonalidade safra/entressafra?

Ainda temos variações sazonais entre safra e entressafra, porém com picos menos acentuados devido à produção leiteira estar mais disseminada geograficamente pelo país, gerando algumas compensações entre as diferentes regiões.

Os mecanismos de financiamento dos estoques são adequados?

Não, ainda não são adequados. Há muitas dificuldades administrativas e burocráticas que dificultam que o dinheiro público e privado chegue de forma suficiente aos produtores.

O que poderia ser feito para estimular o consumo do leite e seus derivados pela população em geral?

Uma maior divulgação dos valores nutricionais benéficos do consumo de leite e de seus derivados. Há alguns poucos exemplos de estados que apóiam campanhas de consumo com a destinação de tributos.

A distribuição de leite na merenda escolar poderia ser ampliada? O que falta fazer para isto acontecer?

Há interesse em se ampliar não só a distribuição de leite como também a de iogurtes e a queijos na merenda escolar como forma de fornecer nutrientes importantes para as crianças, especialmente cálcio e proteínas. É preciso, entretanto, que os governos estadual e municipal destinem verbas maiores para a merenda escolar.

Porque o leite tem a imagem que deve ser um produto barato?

Cremos que isso se deva no nosso país há décadas de subdesenvolvimento, em que os governos se valeram de campanhas de atendimento às necessidades básicas de sobrevivência. A doação constante de leite acabou por criar a sensação de que leite não deveria custar nada.

O cooperativismo tem uma forte presença no setor leiteiro. Como o sr. vê o atual estágio de organização e gestão das cooperativas?

As cooperativas no setor leiteiro já foram muito mais fortes do que são atualmente, quando contavam com incentivos oficiais. Novas formas de produção ganharam importância e as sobrepujaram. Hoje, contudo, percebemos uma tendência das cooperativas voltarem a crescer no setor.

Quais são os desafios para os dirigentes?

Profissionalizar a administração das Cooperativas visando aumentar seu poder de competição no segmento.

A concentração industrial – a compra e fusão de empresas – tem sido uma constante no setor. O que significa a entrada recente das grandes indústrias frigoríficas no setor leiteiro?

Temos observado uma transformação benéfica na área de lácteos. A entrada no segmento de empresas melhor estruturadas e com mais capital de giro, deverá propiciar um melhor ordenamento da cadeia produtiva e a formação de estoques reguladores, que resultará em menor oscilação de preços ao consumidor final.

Nos últimos anos as exportações brasileiras têm crescido bastante? O que aconteceu na produção e na indústria para o Brasil passar de importador a exportador?

Houve um aumento da produção nacional de leite acima do crescimento das necessidades do consumo interno, o que acabou gerando um superávit que veio de encontro a uma demanda mundial aquecida. Isso levou até o ano passado, a um crescimento das exportações brasileiras de lácteos. Mas, no primeiro semestre de 2009 as exportações brasileiras caíram sensivelmente devido à política cambial e à recessão mundial. E vemos que as perspectivas de exportação para o segundo semestre desse ano permanecem bastante sombrias.