TRADIÇÃO OU INOVAÇÃO? O DILEMA ESTRATÉGICO DAS INDICAÇÕES GEOGRÁFICAS NO SETOR LÁCTEO
Tatiane Teixeira Tavares1, Juliana de Cassia Gomes Rocha Lelis2, Flaviana Coelho Pacheco3, Clarice Coimbra Pinto4, Ana Flávia Coelho Pacheco Paiva5, Claudety Barbosa Saraiva6, Junio César Jacinto de Paula7, José Antônio de Queiroz Lafetá Júnior8.
Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais – Instituto de Laticínios Cândido Tostes (EPAMIG-ILCT). e-mail: tatiane.tavares@epamig.br
Resumo: A Indicação Geográfica (IG) tem se consolidado como um importante instrumento de valorização de produtos agroalimentares, especialmente no setor lácteo, ao associar qualidade, território e tradição. Contudo, a crescente complexidade dos mercados, aliada às exigências tecnológicas, sanitárias e de consumo, evidencia um paradoxo inerente a esses sistemas: enquanto a padronização fortalece a identidade e a reputação no curto prazo, pode limitar a capacidade de adaptação e inovação ao longo do tempo. Este estudo analisa o conflito entre tradição e inovação no contexto das IGs, destacando o papel dos cadernos de especificações, que, ao mesmo tempo em que garantem autenticidade e reduzem assimetrias de informação, podem restringir a incorporação de avanços tecnológicos e mercadológicos. A partir de exemplos como pasteurização, uso de culturas selecionadas e tecnologias de rastreabilidade, discute-se o grau de aceitação dessas inovações e seus impactos sobre a tipicidade dos produtos. Adicionalmente, são abordados os riscos associados tanto à rigidez excessiva, que pode comprometer a competitividade, quanto à flexibilidade excessiva, que pode levar à descaracterização. Conclui-se que a sustentabilidade das IGs depende do equilíbrio entre preservação da identidade e adaptação ao mercado, garantindo relevância econômica em um ambiente em constante transformação.
Palavras-chave: Competitividade de mercado; Padronização e alinhamento; Setor lácteo.
Introdução
A Indicação Geográfica (IG) consolidou-se como um dos instrumentos mais relevantes de valorização de produtos agroalimentares no Brasil (Santos et al., 2024). No setor lácteo, especialmente no universo dos queijos artesanais, o selo passou a sintetizar atributos que vão além do produto em si, território, cultura, saber-fazer e reputação. Essa construção simbólica, aliada a regras técnicas bem definidas, permitiu posicionar diversos queijos em nichos de maior valor agregado (Wongprawmas et al., 2025).
Ainda assim, à medida que o mercado se torna mais dinâmico, tecnológico e regulado, emerge uma questão incômoda, porém necessária; até que ponto a IG protege o produto e até que ponto pode restringir sua capacidade de evolução? Em outras palavras, o mesmo mecanismo que garante identidade pode, em determinados contextos, reduzir a adaptabilidade (Cardoso et al., 2026). O que pode gerar um paradoxo em sua padronização, o qual está melhor evidenciado na Figura 1.
Figura 1- Matriz de Dimensões: Ganhos Claros VS Riscos Emergentes

O funcionamento das IGs depende de um equilíbrio delicado entre reconhecimento de tipicidade e controle técnico. Esse equilíbrio é operacionalizado por meio do caderno de especificações, documento que define desde a origem da matéria-prima até parâmetros de processo e qualidade final (Gangjee, 2020). Ao estabelecer esses critérios, a IG cria um referencial claro para o mercado e reduz assimetrias de informação entre produtor e consumidor (Menapace & Moschini, 2024).
Esse arranjo trouxe ganhos evidentes como maior confiança, redução de fraudes e fortalecimento de marca territorial. Contudo, a padronização também introduz um efeito colateral menos discutido. Ao fixar práticas e limites, diminui-se a margem para experimentação. Em um ambiente competitivo, no qual inovação tecnológica, exigências sanitárias e preferências do consumidor evoluem continuamente, a rigidez normativa pode se transformar em fator de inércia (Mariani et al., 2021).
A literatura recente aponta justamente para esse paradoxo, onde sistemas mais rígidos tendem a preservar melhor a identidade no curto prazo, mas apresentam menor capacidade de adaptação ao longo do tempo. Isso não significa que a padronização seja um problema em si, mas que seu desenho institucional precisa considerar a dinâmica do mercado (Jones & Hudson, 1996).
Diante desse cenário, o paradoxo entre padronização e adaptabilidade deixa de ser apenas conceitual e passa a se manifestar de forma concreta no cotidiano produtivo. As limitações impostas pelos cadernos de especificações tornam-se mais evidentes quando confrontadas com demandas práticas de melhoria tecnológica, segurança alimentar e adequação ao mercado (Villamiel & Méndez-Albiñana, 2022). Nesse contexto, algumas inovações passam a tensionar diretamente os limites estabelecidos pelas IGs, evidenciando diferentes níveis de aceitação e resistência dentro dos sistemas produtivos (Mancini et al., 2019). A Tabela 1 apresenta exemplos dessas inovações e seus respectivos impactos no âmbito das indicações geográficas.
Tabela 1 – Inovações que desafiam as IGs

Inovação como vetor de sobrevivência
No setor lácteo contemporâneo, inovar deixou de ser um diferencial e passou a ser condição de permanência. Pressões por segurança alimentar, eficiência produtiva, redução de perdas e sustentabilidade têm levado produtores a incorporar tecnologias e revisar práticas tradicionais. Além disso, a digitalização, seja via rastreabilidade, seja via canais de comercialização, redefine a forma como valor é construído e percebido (Valeanu et al., 2025).
A inovação manifesta-se em múltiplas dimensões, podendo ser tecnológica, ao introduzir novos equipamentos e sistemas de controle; processual, ao ajustar tempos de maturação ou condições de produção; mercadológica, ao repensar formatos, embalagens e canais; e digital, ao integrar dados e transparência ao produto final. O desafio surge quando essas mudanças esbarram em limites estabelecidos pelo caderno de especificações (Oltra-Mestre et al., 2021).
Na prática, o conflito entre tradição e inovação não é abstrato. Ele se manifesta em decisões cotidianas do produtor. A adoção de leite pasteurizado, por exemplo, pode aumentar a segurança microbiológica, mas frequentemente é percebida como ameaça à tipicidade (Cruz & Menasche, 2014). O uso de culturas lácteas selecionadas contribui para maior padronização sensorial, porém reduz a variabilidade associada à microbiota local (Parente et al., 2017). Embalagens a vácuo ampliam a vida de prateleira e facilitam a logística, mas podem interferir no perfil sensorial esperado (Li et al., 2012).
Há, por outro lado, inovações com menor resistência, como sistemas digitais de monitoramento e rastreabilidade, que tendem a ser incorporados com mais facilidade por não alterarem diretamente as características do produto. Esse gradiente de aceitação revela que o ponto sensível não é a inovação em si, mas o grau em que ela modifica atributos considerados essenciais (Pilone et al., 2015).
Se por um lado a descaracterização representa um risco evidente, por outro há um risco menos debatido, porém igualmente relevante, que é a perda de competitividade. Enquanto produtos protegidos por IG seguem trajetórias mais controladas, concorrentes fora desse sistema avançam rapidamente em escala, consistência e adequação a mercados internacionais (Calboli, 2015).
Nesse contexto, a rigidez pode limitar a capacidade de resposta a novas exigências sanitárias e preferências de consumo. O resultado potencial é um deslocamento das IGs para nichos cada vez mais restritos, nos quais o valor simbólico se mantém, mas a relevância econômica diminui. O desafio, portanto, não é apenas preservar tradição, mas garantir que ela continue gerando valor em um ambiente em transformação (Skilton & Wu, 2013).
Entre a rigidez e a descaracterização: a busca por equilíbrio
A evidência acumulada sugere que o desempenho das IGs está associado à capacidade de equilibrar controle e flexibilidade. Modelos excessivamente rígidos tendem a reduzir a inovação, já modelos excessivamente flexíveis correm o risco de diluir a identidade (Rangone, 2020). Entre esses extremos, emerge a necessidade de mecanismos institucionais que permitam atualização contínua sem ruptura, como observado pela Figura 2.
A revisão periódica dos cadernos de especificação aparece como um instrumento central nesse processo. Quando conduzida de forma técnica e participativa, possibilita incorporar avanços científicos e demandas de mercado sem comprometer a essência do produto. Complementarmente, estratégias de inovação incremental, pequenas melhorias que não alteram atributos-chave, permitem ganhos de eficiência e qualidade com baixo risco de descaracterização (Gocci & Luetge, 2020).
Figura 2- Equilíbrio Estratégico entre Rigidez Normativa e Inovação nas IGs

Outro caminho relevante é a adoção de estratégias duais, nas quais produtores mantêm uma linha estritamente aderente à IG e desenvolvem, paralelamente, produtos fora desse escopo para explorar inovações mais disruptivas. Esse arranjo, já observado em contextos europeus, ainda é pouco explorado no Brasil, mas oferece uma alternativa pragmática para conciliar tradição e competitividade (Juk & Fuck, 2015).
Afinal, o que define identidade?
A discussão sobre limites da inovação remete a uma questão conceitual mais profunda, o que, de fato, define a identidade de um produto? Se a identidade for entendida como um conjunto fixo e imutável de práticas, qualquer mudança será percebida como ameaça. Se, por outro lado, for compreendida como um sistema dinâmico, construído historicamente e passível de adaptação, abre-se espaço para uma evolução controlada (Canali, 1996).
Historicamente, a própria tradição nunca foi estática. Técnicas, insumos e condições de produção sempre evoluíram, ainda que em ritmos mais lentos. A diferença no contexto atual é a velocidade dessas mudanças e a pressão por respostas rápidas. Ignorar essa dinâmica pode tornar a proteção um fator de rigidez excessiva (Fibri et al., 2022).
Conclusão
A Indicação Geográfica permanece como um instrumento estratégico de diferenciação no setor lácteo, mas enfrenta um ponto de inflexão. O desafio contemporâneo não é escolher entre tradição e inovação, e sim construir arranjos que permitam a coexistência de ambos. Isso exige governança mais técnica, abertura ao diálogo entre ciência e prática e, sobretudo, disposição para revisar modelos estabelecidos (Vitrolles, 2011).
As IGs que conseguirem integrar inovação de forma estratégica tendem a ampliar sua relevância e competitividade. As que permanecerem excessivamente rígidas correm o risco de se tornarem símbolos importantes do ponto de vista cultural, mas progressivamente menos relevantes do ponto de vista econômico (Juk & Fuck, 2015).
Agradecimentos
Os autores agradecem as instituições que contribuíram diretamente para a execução desse trabalho, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais – Instituto de Laticínios Cândido Tostes (EPAMIG-ILCT) e à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Declaração sobre o uso de ia generativa e tecnologias assistidas por ia no processo de redação
Durante a preparação deste trabalho, os autores utilizaram o ChatGPT para aprimorar a linguagem, a clareza e a fluidez do texto. As figuras foram igualmente desenvolvidas com o apoio de ferramentas de Inteligência Artificial e da plataforma Canva, como suporte à organização visual e ao design gráfico. Após a utilização dessas tecnologias, todo o conteúdo foi criteriosamente revisado e editado pelos autores, que assumem integral responsabilidade pelas informações apresentadas e pela versão final da publicação.
Agradecimentos
À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), pelo incentivo à pesquisa e fomento por meio do projeto APQ-05967-24, fundamentais para a viabilização deste trabalho.
Referências
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